Memória
Do real ao virtual, as insanidades. Comprimidas e compreendidas pelo tempo.
O jeito que sou, só poucos, muito poucos conhecem. O jeito que realmente sou, só conto e só mostro a poucos. E abafo isso tão bem que não escolho o momento de me mostrar. Não controlo. Por isso as mudanças bruscas de humor. Por isso o excesso de acidez. Por isso o sorriso e o choro. Por isso o cansaço. Uma estafa que me acomete sempre e em todo o lugar. E uma ansiedade que sei extamente o porque. Estou mais reservada do mundo. Mas não consigo ainda me desfazer de minha paralisia. Sei identificar com precisão onde ela está e não faço idéia de como sair dela. A resposta está bem dentro de mim. Os mecanismos estão prontos. Serão acionados quando quiser. Temo que o processo seja lento. Estou feliz porque ele, o processo, existe. Preciso aprender a respeitar o meu tempo. Preciso aprender a não deixar passar em vão o meu tempo.
Os dias seguem e ela acorda. O despertador toca às sete da manhã ela olha o relógio, liga o celular, dorme mais dez minutos, tem mais um sonho gigantesco e cheio de significados, desperta num susto! É hora de tomar banho. Escolher a roupa do dia inteiro. Comer alguma coisa. Escovar os dentes. Ir para o trabalho. Aturar toda a palhaçada que este trabalho vem se tornando a cada dia que passa. Hoje é dia de gravação. Tudo está planejado, os problemas são driblados. Mais uma vez, ela precisa ser a motorista e levar a equipe. A pernambucana chega do aeroporto atrasada, mas de bom humor. Reclama da pauta, mas no final acaba gostando. Tudo começa com uma e meia de atraso, mas flui bem. Bons programas. Hora de desproduzir. O lobby volta a ser um lobby. E ela vai dirigir de novo. Vai lá na Federação, perto de sua casa... Mas, nesse instante ela é motorista, e tem que voltar para entregar o carro. Dirige e bem pertinho do trabalho tem um ônibus numa rua bem apertada impedindo a passagens dos carros. Meia hora depois ela se livra disso tudo e corre para pegar a última aula: História do Brasil - "A invasão Holandesa no Brasil". Assiste a aula, o professor é muito bom. Às dez e vinte corre para pegar o ônibus. Chega em casa cansada. Toma um banho, come alguma coisa, escova os dentes e deita. Onze e quarenta da noite. A cabeça não pára de pensar e o coração está acelerado. Quarenta minutos depois, dorme. Amanhã começa tudo de novo. Novo?
Esses dias estou com overdose de Bethânia. Uma overdose específica de um disco antigo, triste e lindo: Mel. Vontade de postar todas as letras de todas as músicas desse disco. Escolhi duas, que deram origem a esta necessidade de mel.
Tive uma lembrança de um pensamento de minha infância. Lembro que pensava sempre que minha vida era um sonho. E eu torcia para acordar logo e conhecer minha vida de verdade. Minha vida de verdade era muito feliz, numa casa grande e rosa (????) e eu sempre estava rindo e meu quarto estava arrumadíssimo e eu sempre sorria para todas as pessoas que via. E isto não era um sonho, era um pensamento mesmo. Pensava nisto e ia imaginando tudo como seria.
Tenho me descoberto uma pessoa muito visual. E assim sigo, compreendendo minhas questões e os sofrimentos típicos. Visualizando fica mais fácil VER em que estágio está este ou aquele problema.
Eu estou tão cansada, mas tão cansada que minhas pálpebras estão doloridas. Nem sei mais se tenho sono. Ou se é apenas cansaço. Ao mesmo tempo uma inquietação. Uma vontade de ir para algum lugar e me distrair. Posso também dormir. Durante vinte e quatro horas. Menos que isso não dá. A sensação é de estar voltando de uma viagem longa por uma estrada de terra que quando a gente passa sobe a poeira. Com aquela sensação de rever as pessoas de sua terra e fazer tudo o que eu sempre fazia. Mas eu sempre estive aqui. Tão imersa em meu mundo e em meus afazeres que nem sabia de mais ninguém, nem das notícias da TV, nem dos capítulos das novelas, nem se fazia chuva ou sol. E esta volta ainda é ausente. Ainda estarei, de alguma maneira, fora da órbita.